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| Carlos Petrovich interpreta Antônio Conselheiro. |
Normalmente existe um preconceito e uma má vontade para com esse tipo de produção. Atualmente é quase um suicídio realizar um filme de arte.
Antes nós tínhamos a censura da ditadura, hoje nós temos a censura de mercado e dos festivais, que exigem um padrão dentro dos parâmetros estabelecidos pela cultura mainstream, que não aceita a desconstrução da narrativa convencional.
Nesse momento do cinema de mercado o “Conselheiro” está indo na contra-mão do sistema, está na contra-corrente. Porque ele foi concebido para ser poético, filosófico, pictórico, imagético e reflexivo, dando ênfase na cor (cinema – pintura) e na trilha sonora, como elementos fundamentais para a funcionalidade dramática.
A construção de uma estrutura não convencional exige uma desconstrução narrativa experimentalista, através de uma proposta vanguardista que incorpora vários elementos de outras linguagens, agregando sentimento e emoção para tentar uma sinestesia entre o autor e o espectador. A pulsação obsessiva é expressada através do imaginário popular e do erudito, do realismo e do delírio.
Delírio conceitual relativo à criatividade, construído com diferenças significativas de ismos e com uma atmosfera onírica entre os limites da ficção e a realidade. Dessa forma repudiando cenários caros e artificiais, com um elenco de atores profissionais e amadores, e uma equipe mínima, com uma montagem circular e recorrente, recorrendo ainda a narração em off.
Solucionamos uma complexidade estrutural, onde através de uma pós-produção criativa resultou um produto diferente da mesmice atualmente imposta pelo mercado.
Tudo isso culminou num outro projeto, num outro direcionamento para suprir as deficiências do material reduzido. Foi necessário colocar a imaginação, a inventividade, associando o que eu denomino de “soluções criativas” para se conseguir chegar a uma combinação, a uma costura, um ensaio. Uma expressão com diversas derivações e influências, mas com uma grafia e estilo próprio.
Partindo desse princípio foram utilizadas várias linguagens para dar concretude a essa dramaturgia, para isso foi necessário usar elementos de vários “ismos” e segmentos artísticos, tais como a teatralização, o cromatismo pictórico, o uso da música de uma maneira polifônica, um desenho de sons e ruídos compatível ao drama.
A junção de tudo isso gerou uma dramatização singular, fora dos padrões convencionais. Dando uma roupagem barroca e delirante. Uma estrutura audiovisual que fugisse da sintaxe griffithana, mais próxima da estética da fome. Na premissa de que com recursos escassos pode-se fazer um filme rigoroso e decente.
O “Antonio Conselheiro” foi também pensado como uma ópera visual, uma ópera sertaneja, uma fantasia leiga de um discurso messiânico popular. Agregado ainda a uma plasticidade e a um discurso interior expressado através de uma composição que sintetiza uma orquestração, um pensamento lógico entrelaçado a um contexto emocional.
Uma peça imagética composta de várias partituras: música, teatro, pintura, poesia, literatura, fotografia. Uma síntese audiovisival com os três gêneros do cinema: ficção, documentário e animação.
Isso se transformou num mosaico delirante dessa epopéia mitológica. A dramaturgia dos sertões com um distanciamento brechtiniano. Para compor o personagem do ator Carlos Petrovich, recorremos a gestualidade eisensteiniana, ao expressionismo alemão e a teatralidade shakespeariana, incorporado a tudo isso a retórica barroca baiana.
Este filme retrata a tragédia republicana que exterminou o Cristo do terceiro mundo. O Cristo revolucionário e apocalíptico que lutou até o fim ao lado dos seus seguidores. Pregava num tom incisivo e sem complacência para com seus opressores.
O Cristo da ressurreição e não o crucificado na cruz, da Igreja Católica. O mito que ficou no imaginário popular, retratado por Euclides da Cunha, o nosso Homero.



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